08/07/2006
Baixista ensina música e cidadania a crianças surdas
Lucas Esteves

Após 27 anos de prática, turnês, discos e aprendizados, o músico Joel Moncorvo, 38 anos, ainda não havia desistido de saber mais sobre a música e sobre o seu próprio instrumento, o contrabaixo. E sua eterna curiosidade trouxe um mundo novo a pessoas que, teoricamente, seriam as menos indicadas a ter contato com o universo musical: os surdos. Através da pesquisa "O contrabaixo e a criança surda", Moncorvo estuda, desde 2005, as possibilidades do instrumento em relação ao corpo dos jovens e ajudou a melhorar a vida de muitas pessoas.

O início foi puro inconformismo. Incomodado com a condição de eternos músicos de segundo escalão relegada aos baixistas, Moncorvo resolveu fazer algo para a mudança deste conceito. "Tomei esta dor de forma positiva e tentei mudar, pois se este conceito existe, deve ser em grande parte por nossa culpa", afirma. Através da amizade com a professora de expressão corporal Elza Portugal, o músico foi apresentado ás crianças surdas da escola Wilson Lins, onde percebeu que poderia fazer algo de bom.

"O baixo é um instrumento de freqüências graves. Então pensei que, mesmo estas crianças sendo surdas, elas poderiam ter algum tipo de sensibilidade às cordas dentro do corpo delas", lembra Moncorvo. O primeiro encontro, em abril de 2005, foi tímido. "Eu estava ali meio estranho no ninho. Ficava no meu canto, tentava me comunicar com as crianças, que usavam a linguagem brasileira dos sinais, ajudado pela professora". Com o tempo, a necessidade de palavras foi diminuindo, até que os encontros semanais ocorriam em completo silêncio, excetuando as notas do contrabaixo.

Uma a uma, cada criança, nascida surda devido a complicações da Rubéola, foi convidada a explorar com suas mãos o instrumento e suas quatro cordas enquanto Moncorvo o tocava. O resultado foi positivo, permitindo que cada um "ouvisse" com seu corpo a freqüência das notas. Entretanto, as recepções foram diferentes para cada um. "Algumas crianças tinham mais e outras tinham menos sensibilidade. para estas que tinham maior dificuldade fiz um trabalho individual e mais lento, para que pudesse despertar".

Alguns alunos se interessaram mais por aprender a tocar o instrumento, o que exigiu do músico montar uma metodologia de ensino inédita. "Tento ensiná-los a tocar células rítmicas, associar o que tocam ao toque dos pés no chão, a explorar as notas do instrumento também como forma de percussão. Com o tempo, eles se afeiçoaram e hoje já conseguem tocar Afoxés e Ijexás, ritmos baianos essencialmente percussivos", relata. O professor não descarta que uma dessas crianças, no futuro, possa tocar em uma banda como um músico comum. "Se for um trabalho paciente, que dure bastante tempo, esta não é uma coisa impossível".

No final das primeiras análises, todas as crianças revelaram particular sensibilidade ao baixo tocado com a técnica do "Slap", que através de puxões nas cordas revela sons mais agressivos, fortes e especialmente percussivos, ditando ritmos mais fáceis de perceber nos corpos dos surdos. A partir disso, as crianças passaram a criar, por conta própria, coreografias e organizar números sem que Moncorvo os solicitasse.

O músico passou a dar mais atenção a esta expressão espontânea de 10 garotas selecionadas na turma entre as que revelavam mais talento para perceber as notas do baixo e organizar um espetáculo que reunisse a beleza plástica ao ritmo musical. Os ensaios aconteciam paralelos às aulas e em alguns meses as crianças estavam prontas para os palcos de salvador.

As jovens tiveram a chance de sentir o gostinho do estrelato em diversas oportunidades, como no palco da Secretaria do Estado, em 2005, e em workshops realizados pelo músico em diversos locais de Salvador, surpreendendo a todos com a beleza e o inusitado da ocasião. "Sempre receberam muitos aplausos e se sentem as próprias quando tudo dá certo. Ficam sem parar de falar sobre isso durante três dias", conta Moncorvo.

O pioneiro trabalho do músico já despertou o interesse de pessoas de fora da cidade, como o baixista da banda de heavy metal Angra, Felipe Andreoli. "Felipe assistiu à apresentação que fizemos em um workshop em Salvador e ficou encantado. Ele sempre me liga e pergunta quando vai poder nos assistir em um teatro em São Paulo, mas não temos como viabilizar tudo isso sem patrocínio", diz. De São Paulo também já partiram convites do Conservatório Souza Lima, um dos mais conceituados do país. Moncorvo adoraria viajar com as crianças para apresentar o espetáculo, mas lamenta a falta de estrutura. "Já perguntaram se não poderia ser com duas ou três crianças para fazer uma versão do show, mas só tem a magia de verdade quando todas estão juntas", acredita.

A professora Elza Portugal, que apresentou as crianças a Joel Moncorvo, agradece a oportunidade única que o músico ofereceu aos seus alunos. "Ele ajudou todas estas crianças a melhorar sua capacidade de percepção corporal, do mundo, de conceitos de estética. Sem contar também o quanto proporciona de cidadania a todas elas, pois a música é cultura e elas também têm direito de ter acesso a ela", resume. Moncorvo também ressalta uma importante evolução prática conseguida através das aulas. "Os surdos não são como nós, que andamos acompanhando uma linha imaginária que mantém o nosso equilíbrio. o surdo tem grande dificuldade de se equilibrar, e estas aulas melhoraram isto em todos eles e elevou bastante a sua auto-estima".

Os encontros com as crianças estão suspensos por enquanto devido às atividades de Joel Moncorvo como baixista das bandas Slow e Ungodly, além do ofício paralelo de webdesigner, da gravação de um CD solo e de um presente que o músico quer dar às suas alunas. "Filmei a nossa última apresentação e estou editando um DVD com estas imagens para dar de presente a todas elas, para que nunca se esqueçam", revela.

A satisfação proporcionada pelo estudo gratifica o músico além do âmbito musical. Normalmente uma pessoa tranqüila, Moncorvo encontrou o ambiente ideal para trabalhar ao dispensar as palavras e se comunicar com as crianças apenas na linguagem dos sinais. "Me encho de paz, de satisfação, não penso em mais nada quando estou com elas, é pura satisfação", garante. A pesquisa já dura mais de um ano e não tem data definida para chegar ao fim, mas Joel Moncorvo já sabe o resultado final de tanto trabalho. "Com toda a certeza, aprendi muito mais do que ensinei."