Agosto de 2005 - Matéria realizada pela Revista Digital Eletrônica - RDCA,
no Centro de Atendimento ao Surdo, em Salvador, sobre a pesquisa "O Contrabaixo e a Criança Surda".
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O Contrabaixo e a Criança Surda
Trabalho de contrabaixista baiano promove interação entre as crianças surdas e o som grave das cordas do Baixo
O baixista Joel Moncorvo chega às duas da tarde no Centro de Atendimento ao Surdo (CAS-BA– Escola Wilson Lins), localizado no bairro de Ondina. Retira o contrabaixo do carro, junto com sua caixa de som, e vai até o primeiro andar do prédio. Entra em uma sala com cerca de 20 crianças. Ao tocar a primeira nota em seu contrabaixo Fender de quatro cordas,começamos uma viagem pelo verdadeiro mundo da música. O corpo das crianças sente a vibração das cordas do instrumento. Dessa maneira, elas acompanham a música e iniciam uma coreografia, sem ouvir, mas sentindo-a.
Elas se movimentam de acordo com o tempo da música. Os movimentos, segundo a professora Elza, servem para trabalhar o equilíbrio da criança. “As crianças surdas não possuem muito equilíbrio no corpo, devido à própria deficiência auditiva. Nós procuramos trabalhar esse ponto”, explica. “O surdo não tem um costume, digamos assim, de ser tocado afetivamente. Eles não ouvem uma pessoa dizer ‘eu te amo’, a não ser pela linguagem dos sinais. Assim, eles possuem certa dificuldade em se abraçar, em se tocar.
Na coreografia, procuramos trabalhar isso também”, conta Elza. As meninas andam lado a lado, encostam umas nas outras, tudo de forma bem sutil. “Com o tempo, vamos acostumando as crianças a serem mais afetivas, a receberem e a darem carinho”, completa Elza. Segundo a professora, a coreografia foi criada pelas próprias alunas. “Joel compôs a música, mas os movimentos foram todos criados por elas. Damos apenas algumas orientações para as crianças que apresentam maior dificuldade”, expõe Elza.
A interação entre o baixista e as crianças ficou evidente desde o início do ensaio. As crianças recebem Joel com muita alegria e ficam bastante a vontade. “No início elas ficavam meio tímidas, pois eu era um estranho no ambiente. Mas logo fomos nos conhecendo e hoje elas estão assim, bem desinibidas”, afirma Joel. Segunda parte – Após o ensaio com as meninas, Joel passa para a segunda parte de seu trabalho: dar aulas de contrabaixo para os meninos surdos, que se impressionam com a técnica do músico. Aos poucos, eles aprendem a arte de tocar contrabaixo. “As crianças sentem as vibrações das cordas mais graves com maior intensidade”, diz o músico. Assim como as meninas, os meninos ficam bem à vontade com Joel.
Ao final, eles se despediram e agradeceram ao contrabaixista pelas aulas. “Eles aguardam ansiosos a próxima semana”, fala Joel.A pesquisa - Joel é um veterano contrabaixista. Possui 25 anos de estrada, tocou em diversas bandas, além de ser professor e produtor musical. Atualmente, dedica-se a sua banda de heavy metal, Slow, e ao universo dos graves. “ Venho me dedicando a tudo que envolve música, principalmente contrabaixo”, diz Joel. Por iniciativa própria, decidiu fazer uma pesquisa sobre o contrabaixo e a interação do instrumento com a criança surda. “Ainda estou em processo de apuração. Mas já percebi que eles possuem uma reação maior ao som das notas mais graves”, afirma Joel. “Quero descobrir as possibilidades de trabalhar com as crianças surdas e, também, observar os seus limites”, completa.
Joel está no oitavo encontro de um trabalho que começou em abril deste ano. “A música é inerente ao ser humano. Então, por que não levar essas crianças, que não podem ouvir, aomundo da música? Afinal, música se ouve, também, com o corpo, como é o caso das crianças”, afirma a professora Elza. Joel diz que o trabalho é gratificante. “Aprendo mais do que ensino. Nunca entrei em contato com esse mundo. Essa experiência tem sido muito boa para mim. Espero que eles estejam gostando também”, diz Joel. Ao final, as crianças agradecem ao contrabaixista, e, ao serem perguntadas se estão gostando do trabalho, todas respondem com um belo sorriso no rosto e o sinal de positivo.
Fonte: RDCA - Revista Digital Eletrônica (Por Carlos Baumgarten)
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