Por Jaime Amorim
Joel Moncorvo, quando este nome é citado em alguma conversa logo os elogios são feitos para com este excelente baixista baiano. Joel consegue ser numa banda o centro das atenções, o que convenhamos em se tratando de baixista é algo incomum – geralmente vocalista, guitarrista e baterista (nesta ordem) são o centro das atenções. Conversamos algumas vezes com o Joel e abaixo você poderá conhecer mais dessa pessoa humana fantástica.
1 - Eu me recordo que quando era criança ganhei de meu pai um violão de plástico. Normalmente quando se pensa em tocar algum instrumento o violão e a guitarra vêm em primeiro lugar seguido de perto pela bateria. Me diga quando foi que você Joel se interessou de verdade pelo contra baixo?
Joel Moncorvo - Comecei a estudar música em 1977, quando tinha 7 anos, sempre recebi o apoio da minha família. Desde cedo ficava encantado com os arranjos do baixo, cantarolava e criava em minha mente arranjos mais graves. Acho que a partir daí começou o meu interesse pela música, especialmente para o contrabaixo.
2 – Interessante, quem foi seu mentor ?
Joel - Tive dois grandes mestres muito importantes logo no inicio, O meu primeiro professor de música, Jorge Silva e a minha Mãe que é Musicista e Educadora Musical Elza Moncorvo.
3 – Ah ta explicado, filho de peixe peixinho é rsrsrrs. Qual o instrumento que sua mãe toca e como ela te influenciou, aprofunde um pouco mais.
Joel - Além da minha mãe ter estudado Piano Clássico, hoje ela é educadora musical de alunos especiais. Sempre me incentivou com o seu apoio. Me apresentou vários livros musicais e me levava para assistir as suas aulas de música e expressão corporal, despertando assim, o meu interesse pelo instrumento.
4 – Hummm, então foi tua mãe também que te influenciou no seu trabalho junto a crianças surdas? Nos conte um pouco mais deste inusitado trabalho de utilização de um contra baixo na terapia junto a crianças surdas?
Joel - Recentemente, participei de uma pesquisa onde encontrei respostas positivas quanto ao envolvimento da criança portadora de surdez com a música. Resolvi então pesquisar com o contrabaixo, outras possibilidades de estudo. A pesquisa que estou realizando no Centro de Atendimento ao Surdo, na Bahia, estuda as possibilidades de como o contrabaixo– instrumento de baixa freqüência, que desperta uma forte vibração sobre o corpo humano, pode auxiliar a criança portadora de surdez no desenvolvimento de sua sensibilidade (auditiva/corporal).
5 – Muito interessante este trabalho, parabéns pela iniciativa em trabalhar com pessoas que são “normalmente” excluídas da sociedade e das políticas públicas do governo. Mas Joel nos diga quais bandas e outros projetos musicais você participou ao longo de sua carreira?
Joel - Fiz parte de vários projetos com estilos musicais diferentes, pois foi um dos fatores que me permitiu novos caminhos e possibilidades musicais. Toquei em alguns grupos de Jazz (Project Bass and Drum) , música instrumental (Casa Brasil), bandas de baile (Turmalina), Rock (Dimy Ruffo, Direito Autoral, Dr. No) Death Metal (Kaddish, na qual eu era baixista e vocalista) e atualmente na Slow.
6 – Me corrija se eu estiver errado, mas você chegou a tocar com um cantor pop dos anos oitenta chamada Silvinho, Vocalista da banda Absinto que fez um enorme sucesso pelo Brasil com uma música insuportável que contava a “história” de um ursinho. Você é um músico profissional e como tal sobrevive de seu trabalho, mas nos conte como é ter que “esconder” seu talento tocando músicas ridículas como esta citada?
Joel - Temos exemplos de grandes músicos acompanhando bandas e artistas que estão no gosto da grande massa popular. Aprendi uma coisa muito importante na vida: em todos os trabalhos que venho participando na minha carreira musical, procuro entender e respeitar a proposta do artista ou da banda e o seu direcionamento musical, ou seja, procuro identificar qual o público que vai escutar aquela música, e o que determinado estilo pede, estabelecendo, assim, uma relação de respeito mútuo, estando sempre aberto para todo tipo de comentário e sugestões nas linhas de composição do contrabaixo, adequando a minha formação musical a determinada banda, artista ou estilo musical.
7 – Entendo, todavia você que toca numa banda de Prog Metal (um estilo que tem fãs que não são radicais) sabe que o no universo do Heavy Metal uma grande parcela dos que o ouvem parecem burros de carroça que só olham para frente. Dizem não ouvir nada além de Metal (muitos ouvem em casa escondidos dos amigos), mas para um músico isto é praticamente inimaginável. Pois se este se privar de ouvir, assimilar, se influenciar por outros estilos musicais ele estará fadado a ser um músico medíocre e bastante limitado. Concorda?
Joel - Não digo medíocre, talvez tal músico vá deixar de conhecer outras possibilidades musicais. A música é infinita e tem vários caminhos, cada um pode seguir a estrada que melhor lhe convier. Não tenho preconceito musical. No meu caso, vivo de música. Tenho na grande maioria alunos que adoram, como eu, o METAL, mas também tenho alunos adoram tocar Jazz, Fusion, música erudita, Forró e MPB. Se eu não estiver atualizado, não teria essa clientela.
8 – Como sempre você é bem polido em suas reflexões, rsrsrrs. Conversando recentemente você me havia dito e me mostrou um trecho de uma música de seu trabalho solo – pré produção. Gostei do que ouvira naquela madrugada fria (pasmem) em Salvador. Quantas músicas teremos neste álbum e quando este será lançado?
Joel - O álbum será lançado ainda esse ano, só não posso falar com exatidão a data. Com relação a quantidade de músicas o que posso adiantar é que já tenho 8 músicas em fase final de composição, e estou compondo mais duas músicas que terão freqüências bem baixas as quais dedicarei as pessoas portadoras de surdez.
9 – Sendo você um músico que prima pelo perfeccionismo certamente terá outras “feras” para estarem contigo nesta empreitada. Poderia nos adiantar quem irá te acompanhar nas gravações?
Joel - Estou entrando em contato com vários músicos que possuem afinidade, experiência e compromisso com a boa música. Prefiro revelar os nomes apenas quando iniciarmos as gravações.
10 – Mas nos diga será um disco instrumental? Qual será o foco do álbum, você terá um estilo definido de música no mesmo ou vai dar margem a explorar todo seu potencial criativo?
Joel - Sim, será um CD instrumental, com muita influência do Fusion, Jazz, Rock Progressivo e Metal. Estou estudando a possibilidade de acrescentar duas faixas de imagem e vídeo dedicada as pessoas portadoras de surdez. Com relação às composições, trabalho bastante com variações rítmicas, unindo muito o baixo à bateria, tendo esses dois instrumentos, em determinadas partes da música, super colados. A guitarra e o teclado entrarão mais livres, fazendo belíssimos temas, melodias, dedilhados e solos. Será um trabalho bem “pesado” e sentimental, colocando ao melhor nível, as minhas capacidades e compreensão musical.
11 – Então o trabalho será mais focado em você e num segundo plano na bateria. Me explique direito isto.
Joel - Gosto muito de tocar o contrabaixo em sincronia com a bateria, vejo nesses dois instrumentos o alicerce de um grupo.
12 – Você é um músico bem versátil, como foi a experiência de ter gravado o álbum de estréia do Ungodly, uma banda de Death Metal.
Joel - Foi um ótimo momento da minha carreira musical. O Ungodly é um grupo muito profissional e poder fazer parte de um trabalho desse nível foi mais uma grande experiência para mim.
13 – Eu estou sabendo que você irá comparecer a maior feira de música do Brasil, a Expomusic. Isto foi uma necessidade como músico que visa se relacionar com a indústria musical ou você recebeu algum convite para comparecer?
Joel - Estou indo a convite da loja de instrumentos musicais 3º Ton e representando a M.Laghus Basses and Guitars na Expomusic, além disso, estou indo para conhecer outras pessoas e me atualizar nos equipamentos e novidades, o que ampliará bastante os meus horizontes musicais. NE: esta entrevista foi feita antes do Joel viajar.
14 – Você por ser um músico que não se prende a um determinado estilo em especial pode com certeza me responder com a maior franqueza possível; como você analisa os baixistas que temos no Metal do Brasil, falo de técnica e destreza em arrancar os graves de um contrabaixo.
Joel - Vejo que os baixistas estão se preocupando mais em estudar, aprender e até desenvolver técnicas. Hoje, temos baixistas brasileiros que não devem nada a ninguém lá fora. No geral, noto o contrabaixo ainda muito apagado nas músicas dando apenas aquela sombra que muitos dizem ser o papel dele. Aos amigos baixistas, sugiro que estudem e pesquisem incessantemente o instrumento, estando assim mais aptos e com a sabedoria necessária para desempenhar o seu papel na banda.
15 – Em teus shows, workshops é muito comum vê-lo colocar seu contrabaixo no chão de fazer uma performance, algo muito interessante de se ver e ouvir. Quando e porque você começou a utilizar deste artifício em tuas apresentações?
Joel - Uma certa vez estava tocando no Festival Palco do Rock, em 1995, em Salvador, em determinada parte de uma música, tem um arranjo que pára tudo e entra um tapping de contrabaixo, quando eu fui começar a fazer, a minha correia soltou e o meu baixo caiu no chão, tinha mais de 2.000 pessoas assistindo o show da Slow, simplesmente, fui até o baixo e comecei a executar o tapping no chão. Todos adoraram! Foi um momento marcante na minha carreira musical e até hoje nos shows com a Slow todos me pedem para eu colocar o baixo no chão.
16 – Hoje Joel Moncorvo é um músico que vive (sobrevive) de sua atuação como baixista?
Joel - Trabalho como professor de contrabaixo, produtor musical, músico de estúdio e músico contratado. Depois de muito tempo e batalha, finalmente comecei a viver de música. Isso sempre foi uma meta.
17 – Suponhamos que eu resolva começar a entrar no mundo dos graves, quais conselhos/caminhos que você me diria que eu deveria seguir para ser um baixista de bom nível?
Joel - Em primeiro lugar procurar bons profissionais, escutar todos os estilos musicais possíveis, procurar conversar com os músicos mais experientes que possam lhes passar conhecimento e sabedoria. Ler bastante sobre os músicos eruditos e populares, pois o conhecimento vem da pesquisa, da prática, do esforço de cada um, do desejo de fazer bem feito.
18 – Bem Joel foi muito ter feito esta entrevista que certamente irá elucidar frente aos nossos leitores a pessoa humana, educada e um excelente baixista que é você. Portanto meu caro se sint a a vontade para dar sua mensagem final aos leitores do MetalVox.
Joel - Muito obrigado a todos que vêm me apoiando, respeitando e confiando no meu trabalho. Gostaria de agradecer a Jaime Amorim e a toda equipe do Metalvox pela oportunidade da entrevista. Aos leitores, agradeço a atenção e os convido para conhecer os meus trabalhos e pesquisas musicais através do site www.joelmoncorvo.com Aos fãs da Slow, aguardem o lançamento do nosso EP que trará muitas novidades, e o lançamento do meu CD solo, que terá a participação de grandes músicos Abraços a todos!
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